segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Em cartaz na Barra Funda: lar, amargo terminal


Solitária e doente, Maria Aparecida Moresco, de 58 anos, viveu durante sete meses no Terminal Rodoviário

Todos os dias, 530 ônibus, de 34 empresas diferentes, partem do Terminal Rodoviário da Barra Funda. Embora esteja sentada na área destinada aos passageiros que vão embarcar e se agarre a duas bolsas de viagens, Maria Aparecida Moresco, de 58 anos, não espera por nenhum deles. Das 40 mil pessoas que circulam pelo local, ela é a única que fica ali sem ter outro destino. Desde janeiro, Maria Aparecida fez do terminal, na Avenida Auro Soares de Moura Andrade, 664, o seu endereço fixo.
É a história de uma mulher solitária e doente que lembra o filme americano “O Terminal”, com o ator Tom Hanks. Mas essa é a vida real de Aparecida, que, em cartaz há sete meses na Barra Funda, quase ninguém parou para ver.
A mulher passa os dias cochilando na mesma cadeira azul na rodoviária. Ela cobre a cabeça com o capuz do casaco em busca de um pouco de escuridão e deixa o pescoço cair para a esquerda. Ela não ronca.
Solidão/ Enquanto dorme, Aparecida não pode ver a reação dos passageiros, que, ao se sentar perto dela, logo se levantam. De suas pernas enfaixadas sai um mau cheiro, que cria um vácuo ao seu redor. Ela está doente. Os seus pés inchados, vermelhos, rachados e sujos estão metidos em um chinelo de dedo. Ela perde a chance de uma conversa à toa para passar as intermináveis horas na rodoviária e distrair a solidão e a dor nas pernas.
Aparecida não é vista pedindo dinheiro. Funcionários do terminal comentam que ela recebe uma aposentadoria de R$ 530 por invalidez. É com esse dinheiro que sobrevive. Na lanchonete, se aproxima da vitrine, pede um salgado e um capuccino. Paga com R$ 10. “Ela vive aqui. É uma pessoa que já teve posses. Só gosta de tomar capuccino”, observa a atendente da lanchonete.
Infância feliz/ De volta a seu lugar, Aparecida se prepara para dormir, mas a equipe do DIÁRIO, após dias a observando, se aproxima para a primeira conversa. Durante a semana, outros cinco encontros se seguiram. “Eu vou contar a minha história para reencontrar a família Moresco e encontrar minha família verdadeira”, fala, de supetão. Ela diz ser adotada, não ter nascido no Brasil e ter um irmão gêmeo.
De uma sacola plástica, ela tira fotografias da infância feliz. Ela é filha de José Moresco e Colem Alvarenga Moresco, conforme consta na carteira de identidade. O pai teria sido dono de um fábrica de sutiãs.
“Morei muito tempo na Avenida Francisco Matarazzo, 285”, conta. No início dos anos 1990, ela diz que a mãe, viúva desde 1963, perdeu todo o dinheiro da poupança. Não há documentos ou parentes para confirmar. A casa teria sido vendida e elas foram morar de aluguel.
A moradora do Terminal Barra Funda nunca se casou nem teve filho, mas viveu um grande amor. Ele morreu em 1994. É o único assunto que não quer falar. “Não gostaria de conversar sobre isso. Pode-se dizer que ele morreu de acidente”, diz. Coincidentemente, foi o ano em que Aparecida Moresco começou a fumar.
Com a morte da mãe no mesmo ano, Aparecida, que, entre outros empregos, afirma ter trabalhado em teatro, foi caindo o padrão de moradia até viver em hotéis e pensão. Quando se viu definitivamente sem teto, logo pensou na Barra Funda por ser mais seguro.
Cama quente/ A última vez em que Aparecida esticou as pernas em uma cama foi do dia 2 para 3 de janeiro em uma pensão no bairro de Santa Cecília, no Centro. “O quarto era horripilante.” A doença das pernas – segundo ela, uma erisipela inicialmente – teria se agravado pela falta de circulação, já que dorme sentada.
Além, claro, da evidente falta de higiene e tratamento adequado. Aparecida usa o banheiro do terminal, mas para tomar banho é preciso pagar R$ 7, o que não faz todos os dias.
Com diploma/ A fala articulada e o português correto impressionam. A moradora do Terminal Barra Funda diz que é formada em ciências sociais pela PUC-SP. A instituição confirmou Maria Aparecida Moresco como sua ex-aluna.
Ela conversa sobre filosofia e política. Gosta de literatura, tem uma predileção por escritores latino-americanos como Mario Vargas Llosa e Jorge Luís Borges. Dos brasileiros, é fã de Guimarães Rosa e acha que o autor de “Grande Sertão Veredas” deveria ser enredo de uma escola de samba.
Apaixonada por Carnaval, é Mocidade Alegre. “Gostaria de trabalhar na escola, fazer algo lá. Eu estava com essa ideia quando entrei em situação de rua”, fala. Ela diz que o desfile mais bonito que já viu foi “O Rei de França na Ilha da Assombração”, de Joãsinho Trinta, no Salgueiro, em 1974. Sem pudor, com uma bela voz, começa cantar todo o samba-enredo. “In credo in cruz, ê ê, Vige Maria/ As preta véia se benze, me arrepia...”. E Aparecida, que até então era invisível, se fez ouvir e ver no terminal.
Moradora da Barra Funda já cuidou de população de rua
“O que me dói é que ajudei muitas pessoas na rua e agora que estou nessa situação não tem ninguém para me ajudar”, reclama Aparecida Moresco. A moradora do terminal já foi funcionária do Centro Social Nossa Senhora do Bom Parto. De acordo com informações da instituição, ela trabalhava no projeto A Gente na Rua, que cuidava da saúde da população sem teto. Aparecida aposentou-se por invalidez por motivos psiquiátricos. O diagnóstico foi esquizofrenia.
A Socicam, que administra o Terminal Barra Funda, afirma que não há regras de permanência de pessoas no local, mas notada a presença constante no local é verificado se há necessidade de um atendimento diferenciado.
No caso de Aparecida, os funcionários da Sociam acionaram o Samu para que ela recebesse o atendimento médico e, também, a Secretaria Municipal de Assistência Social para que fosse feito acolhimento para um local adequado. A secretaria confirma que foi notificada sobre Aparecida em março, mas ela teria recusado o atendimento. Após o contato do DIÁRIO para esta reportagem, agentes da Assistência Social procuraram Aparecida na noite de sexta-feira e ela foi levada para um albergue.

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