segunda-feira, 13 de agosto de 2012

R7 circula na maior linha de ônibus de São Paulo

“Rainha da Madrugada” foi criada para atender moradores de bairros da zona leste
A Rainha da Madrugada, como muitos passageiros costumam chamar a 3310-10 – Terminal Amaral Gurgel (centro)/ Cidade Tiradentes percorre 103 km
A "Rainha da Madrugada", como muitos passageiros costumam chamar a 3310-10 – Terminal Amaral Gurgel (centro)/ Cidade Tiradentes circular, é a maior linha de ônibus municipal de São Paulo (e provavelmente do Brasil) em quilometragem. Ela foi criada nos anos 1980 para atender moradores de bairros da zona leste, a região mais populosa de São Paulo, que tinham dificuldade para voltar do trabalho para casa de madrugada. 
São garçons, garçonetes, cozinheiras e cozinheiros, vigias, seguranças, porteiros, trabalhadores do sexo, garis, policiais e, por ironia, cobradores e motoristas de outras linhas de ônibus.
Por causa do grande tempo gasto em cada percurso, os quatro horários da linha, apesar de serem separados por intervalos de tempo entre uma hora e dez minutos e uma hora e 15 minutos, não podem ser feitos pelo mesmo ônibus.
A reportagem do R7 fez o percurso de ida e volta da “Rainha” no horário que deixa o Terminal Amaral Gurgel, no cento de São Paulo, às 4h30. 
O ônibus saiu do terminal exatamente às 4h32. Três horas e nove minutos depois, às 7h41, cumpriu a primeira metade do círculo. Parou por apenas três minutos na “virada” do trecho circular, numa rua da Cidade Tiradentes, leste do extremo leste da cidade, ao lado da divisa com outro município, Ferraz de Vasconcelos. 
Na volta, o ônibus partiu rumo ao centro às 7h44. Duas horas e 50 minutos depois, às 10h34, cruzou o portão principal do Amaral Gurgel, em Santa Cecília. Foi uma jornada das duras. A Rainha da Madrugada completou o “círculo do circular” em seis horas e dois minutos, 52 minutos a mais do que a média oficial divulgada pela prefeitura, de cinco horas e dez minutos para os dois trechos. 
Por causa das longas distâncias, percorridas em apenas quatro horários, quase todo mundo se conhece na Rainha da Madrugada. 
Isso faz com que o clima durante a viagem na linha 3310-10 seja parecido com o daqueles ônibus de faculdade que levam e trazem as mesmas pessoas todos os dias, de uma cidade a outra, para estudar. 
Isso nas viagens do bairro para o centro, no início da manhã. Na volta para casa, durante a madrugada, a turma, destruída pelo cansaço, quer mesmo é tirar uma soneca enquanto o ponto não chega. Dessa forma, nas idas para o bairro a Rainha assume um tom tranquilo, cortado aqui e ali pelo barulho dos roncos e de conversas pontuais do motorista com o trocador ou de parte da minoria insone. 
Em cada metade do trecho circular, o 3310-10 corta 15 bairros. 
Na direção centro-bairro, a maior parte dos passageiros desce em Guaianases. Ali ficará Rita Louzeiro, 36 anos, mãe de quatro filhos e funcionária de um bar no centro da cidade que invade madrugadas a pleno vapor. 
Depois de uma boa soneca com a cabeça apoiada na alça do banco e na borda na janela, ela aceita a chata interrupção do repórter para contar um pouco de sua rotina – pesada, como a da suprema maioria dos “súditos” da Rainha da Madrugada. 
— Chego em casa normalmente entre 6h30 e 6h45. As crianças estão tomando banho e se arrumando para a ir ao colégio. Faço o café e os encaminho. Aí dou uma cochilada de no máximo duas horas e levanto para preparar o almoço. Os meninos chegam, comem e só então eu tiro outra soneca. Mas muito rápida. Tenho minhas obrigações de dona de casa para resolver e, dali a pouco, é hora de voltar para o bar. 
Mais à frente, já na Cidade Tiradentes, Roberta Pereira, 26 anos, funcionária de um restaurante, conversa com o motorista enquanto se prepara para descer. 
Os dois comentam que a linha, por seu tamanho e horário de funcionamento, até que tem pouco assalto. Mas, como lembra Roberta, não são poucas as peças raras que costumam agitar a rotina nos trajetos. 
— Dia desses fui acordada pelo barulho da confusão do motorista expulsando um sujeito que tomava atitudes obscenas enquanto tentava, veja só, me acariciar. O cara estava ao meu lado. E eu dormindo, acabada de tanto cansaço. 
Outras visitas não muito raras de acontecer são as de mendigos e bebuns. 
Os primeiros, para mudar de área de atuação ou mesmo dormir em um dos bancos enquanto a Rainha corta a zona leste na madrugada. Os segundos, para se deslocar na cidade sem pagar passagem. Quando estão com o corpo e as roupas sujos e não exatamente perfumados, os dois costumam criar trabalho para motoristas e trocadores na retirada. Os bêbados bem mais, porque costumam resistir. Os que sentam quietos, não incomodam e nem prejudicam a higiene ou a qualidade do ar no interior do busão são tolerados. 
Por tudo isso que ocorre dentro do coletivo – e sobretudo pelo risco do que pode acontecer fora dele -, algumas passageiras veteranas são brindadas com um ato de gentileza quando param em frente de casa: o motorista espera alguns segundos até que elas abram o portão, a porta e entrem. Roberta e Rita estão neste grupo. 
O clima é mais animado no retorno para o centro. Com as pessoas mais descansadas e acordadas, as conversas e gargalhadas são mais frequentes, mesmo de manhã. 
O problema, agora, é outro: os atrasos. Diante da distância e do trânsito sempre imprevisível, eles são impossíveis de calcular. 
Luciana Rodrigues, funcionária de uma loja na Freguesia do Ó, zona norte da cidade, está desanimada, às 10h da manhã, ainda dentro da Rainha que pegou pouco depois das 8h, nos primeiros pontos da volta. 
— Nunca dá para saber o tamanho do atraso. Tem dia que a gente acha que vai ser fácil e é aquela loucura. Aí vem uma sexta-feira e acontece o contrário, anda bem. Um acidente para tudo por horas. Minha sorte é que meu patrão confia em mim e fez esse trajeto comigo. Conhece a situação, sabe que não é mentira. Mas muitos colegas ficam mal no emprego e nos compromissos. Acham que eles mentem. Mas a gente sai muito cedo, sofre muito, faz tudo para chegar na hora, mas é impotente para resolver essa situação. 
E o pior é que Lúcia, como muitos passageiros do 3310-10, ainda pega outro ônibus para chegar ao trabalho. 
Terminal Amaral Gurgel, 10h44. O 3310-10 desliga o motor. 
Motorista e cobrador vão descansar. Quem olha não entende muito porque a dupla aparenta tanto cansaço ainda no meio da manhã. São os efeitos da Rainha da Madrugada. 
Mas depois eles explicam essa história em detalhes. Agora, melhor dormir.
Fonte da Matéria: http://noticias.r7.com/

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