terça-feira, 14 de maio de 2013

Déficit de motoristas de ônibus no Rio leva empresas a contratarem profissionais com pouca prática

Na condução do coletivo, a jornada de trabalho pode dobrar, chegando a 14 horas, sem pausa para refeições, que, não raramente, são feitas ao volante
Ludmilla de Lima (Email · Facebook · Twitter)_Waleska Borges (Email)
Empresa muda o alvo na tentativa de “humanizar” o serviço: anúncio não exige experiência
PABLO JACOB / O GLOBO
RIO — Os motoristas de ônibus do Rio estão envelhecendo, mas cada vez têm menos experiência e escolaridade, além de perderem poder aquisitivo. Na condução do coletivo, a jornada de trabalho pode dobrar, chegando a 14 horas, sem pausa para refeições, que, não raramente, são feitas ao volante. Enquanto encaram o estresse do trânsito caótico, muitos são desafiados a cumprir metas de produtividade, o que prejudica idosos e estudantes com direito à gratuidade. Ao fim dessa equação, como mostra a terceira reportagem da série “Máquinas mortíferas”, a segurança é que sai perdendo, deixando em risco mais de 3 milhões de passageiros transportados por 9 mil ônibus todos os dias no Rio.
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Uma pesquisa por amostragem da Federação das Empresas de Transporte do Rio (Fetranspor) sobre o perfil dos motoristas no estado, com dados de 2010 e 2012, revela que o poder aquisitivo dos condutores do Rio caiu: se há três anos 87% ganhavam mais de R$ 1.500, no ano passado esse percentual era de 64%. O número de profissionais com ensino fundamental incompleto aumentou de 28% para 36% no período. Ainda de acordo com a pesquisa, o número de motoristas plenos (mais experientes) caiu de 25% para 18%.

Nos últimos 15 meses, afirma a Fetranspor, a rotatividade de motoristas atingiu o impressionante percentual de 40%. Isso quer dizer que quase a metade dos funcionários pediu demissão ou foi demitida. As condições difíceis de trabalho, os baixos salários e o mercado aquecido para motoristas de caminhão estariam por trás desse fenômeno. O déficit seria de 1.500 profissionais nas contas da federação, e de 3 mil na estimativa do Sindicato dos Motoristas e Cobradores (Sintraturb). Atualmente, são cada vez mais comuns os anúncios em ônibus oferecendo vagas para contratação imediata.
Num ciclo perverso, pagam o pato não só os condutores, como também os que são transportados por eles. Em sete horas de trabalho, o motorista de ônibus G., de 36 anos, precisava cumprir uma meta diária: levar 350 passageiros pagantes no caminho entra a Central e o Bairro de Fátima em sua jornada. Pressionado pelos fiscais da empresa, ele conta que deixava para trás estudantes e idosos. Apesar das tentativas, G. não conseguiu atingir a produção. Foi demitido há cerca de dois meses. Ex-caminhoneiro, ele havia sido admitido na empresa após treinamento de apenas cinco dias.
— Chegava para trabalhar com o diabo no corpo. Descontava tudo nos passageiros. Estava revoltado e deixava os velhos a pé. Eu chegava a fazer isso — relatou o motorista na manhã de ontem num dos pontos da Central do Brasil.
No antigo emprego, ele desempenhava função de motorista e trocador. O condutor confessa ter dirigido, mais de uma vez, com apenas uma das mãos. Segundo ele, isso teria provocado acidentes. As avarias eram descontadas no contracheque. Mesmo com esse histórico de conduta e indignado com as condições, ele se mantém no ramo: G. agora trabalha para outra empresa de ônibus.
Essa alta rotatividade resulta não só na substituição de profissionais experientes por novatos como também em troca-troca de funcionários entre as diversas empresas — estes últimos apelidados de “camelôs do asfalto”. A partir de denúncias recebidas e de ações na Justiça sobre jornada excessiva e cobrança de produtividade, o procurador Rodrigo de Lacerda Carelli, do Ministério Público do Trabalho, faz um diagnóstico:
— O sistema todo está doente. O trabalhador não tem incentivos para ser um bom motorista porque o regime é massacrante. Os trabalhadores entram num esquema que é dado pelas empresas. No final, a segurança é zero, e quem sofre é a população.
Como consequência da escassez de mão de obra e também pela necessidade de “humanizar” o motorista, há empresas que estão optando por contratar mulheres, que atualmente representam apenas 5% dos 55 mil condutores em todo o estado (na capital, são 16 mil).
Responsável pela área de recursos humanos da empresa Vila Real, Érica Faria explica que há dois anos a transportadora começou uma campanha para contratação de mulheres, com anúncios colados nas traseiras dos veículos. Ela afirma que são contratadas mulheres sem experiência no ramo, como camelôs, empregadas domésticas e motoristas de transporte escolar, para “moldar o profissional”. O treinamento é feito entre uma semana e 45 dias.
— As mulheres têm toda uma forma carinhosa e responsável. Elas vêm para agregar na nossa empresa. Muitas são contratadas com a carteira tipo B (para carro de passeio) e atuam como cobradoras. Depois são treinadas pela empresa e passam a ser motoristas. São profissionais sem vícios no trânsito — ressalta Érica, acrescentando que as mulheres se envolvem em número menor de acidentes graves.
Empresas dizem que setor não atrai mão de obra
No vale-tudo por motoristas, as empresas tentam atrair profissionais recém-treinados por empregadores concorrentes e oferecem treinamento rápido para colocar os funcionários logo nas ruas. O quadro é confirmado pela Federação das Empresas de Transporte do Estado (Fetranspor) e pelo Sindicato dos Motoristas e Cobradores do Rio (Sintraturb). Quando um motorista é contratado, ele obrigatoriamente passa por um curso na empresa — que deveria ser de cerca de 30 dias — e por outro de 40 horas no sistema Sest/Senat, custeado com repasses de 1,5% sobre a folha salarial de cada empregador.
Relações públicas da Fetranspor, Suzy Balloussier admite a disputa entre as empresas. Ela explica que isso faz com que o motorista não receba no novo emprego o treinamento ideal. Vice-presidente do Sintraturb, Sebastião José da Silva revela outra situação que expõe as feridas do sistema: segundo ele, há motoristas que desistem assim que terminam os cursos:
— Muitos se submetem ao curso, mas não passam no teste quando sentam em frente ao volante e entram no engarrafamento. São poucos que vão se adaptar a essa profissão, que, além de estrutura física e emocional, depende da resistência de cada pessoa.
Para a Fetranspor, as explicações para o déficit de condutores estão no mercado aquecido, que aumentou a procura por motoristas de caminhão; no trânsito caótico do Rio e nos salários oferecidos pelo setor. Suzy joga a responsabilidade também para o poder público: ela alega que em outros países 70% dos custos são subsidiados pelos governos e que, no Rio, 100% deles são bancados pela tarifa. Ela afirma que a mão de obra abocanha 51% dos custos, e que avanços maiores na qualidade do serviço prestado dependeriam de recursos públicos.
— Hoje o setor não tem atrativo salarial para manter a mão de obra — afirma Suzy, acrescentando que a falta de profissionais será ajustada até 2016 com a racionalização da frota iniciada pela prefeitura, que inclui menos ônibus no asfalto e mais BRTs, que oferecem melhores salários e mais conforto.
Treinos com simuladores
Para aperfeiçoar o treinamento, a federação adquiriu três simuladores — o terceiro está em fase de montagem —, semelhantes aos usados por empresas de aviação, e promove com a Fundação Getúlio Vargas (FGV) o curso “Motorista Cidadão”, cujos módulos vão de “Direitos e deveres e papel social” do profissional a “Qualidade de vida: cuidando de si mesmo”.
Já a prefeitura ressalta que, num prazo de um ano, todos os motoristas de ônibus terão que passar por uma reciclagem, determinada pelo prefeito Eduardo Paes. Segundo o secretário municipal de Transportes, Carlos Roberto Osorio, depois dessa atualização, cada um receberá uma espécie de registro, com nome e informações profissionais, que ficará visível para os passageiros, como já ocorre hoje nos táxis. As novas medidas prevêem ainda que o funcionário que atingir 10 pontos na carteira terá que passar por novo treinamento. E que na terceira multa por avanço de sinal ele será demitido.

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