segunda-feira, 17 de junho de 2013

Endividadas, empresas deixam trabalhadores à vontade para parar os ônibus

Setuf indica que a gênese dos problemas está na criação da tarifa única, em 2006
Trânsito na ponte em Florianópolis
Marco Santiago/ND Retrato do trânsito da Grande
Florianópolis: um ônibus em meio a muitos carros

Paulo Clóvis Schmitz @pc_ND
FLORIANÓPOLIS
Uma década atrás, a frota que atendia a Grande Florianópolis era composta por 380 ônibus envelhecidos, com câmbio mecânico e alto potencial poluidor, que transportavam 5,3 milhões de passageiros por mês. Hoje, o número de usuários é praticamente o mesmo, mas são 100 veículos a mais, movidos a combustível que polui pouco, com embreagem hidráulica e sistemas de freios melhor adaptados ao trânsito caótico da região. Bom para a população? Nem tanto, porque o tráfego piorou, muita gente migrou para o transporte individual achando que fugiria das filas e as cinco empresas do setor agregaram 500 trabalhadores ao pessoal que já tinham, comprometendo, com salários e financiamentos, a própria saúde financeira.
Isso não explica tudo, mas dá uma pista das razões que levaram a uma piora significativa na quali­dade do serviço prestado e às gre­ves que se repetem a cada ano na cidade. “A tarifa única, criada em 2006, ajudou a criar o quadro atu­al”, diz o presidente da Setuf (Sin­dicato das Empresas de Transporte da Grande Florianópolis), Waldir Gomes da Silva, tentando embasar o argumento da asfixia econômica das empresas, que compraram ôni­bus mais modernos e se endivida­ram com isso. A falta de corredores exclusivos, comuns nas capitais, e de integração com outros modais, como o marítimo e o metroviário, também ajuda a entender porque, em vez de evoluir, o sistema de transporte público de Florianópo­lis desandou em dez anos.
Para complicar, o poder públi­co e concedente não conseguiu fa­zer a sua parte, que é melhorar as condições de tráfego na Ilha, espe­cialmente. Nessa lacuna, avançou com desenvoltura impressionante o Sintraturb (o sindicato dos mo­toristas e cobradores), que impôs suas reivindicações, aumentando salários, reduzindo o tempo de tra­balho – e parando a cidade de tem­pos em tempos. “Eles fazem o que se espera de um sindicato, mas os seus interesses vêm se sobrepon­do aos interesses da população”, afirma Vinicius Cofferri, diretor de Operações da Secretaria de Trans­portes, Mobilidade e Terminais. 
O que o IPI tem a ver com isso?
Um dado simples e curioso mostra como mudou a situação do transporte nos últimos anos. O presidente da Setuf, Waldir Gomes da Silva, constatou que há uma década 90% dos motoristas de ônibus não tinham carro próprio. Hoje, com menos horas de trabalho, eles podem fazer “bicos” ou arrumar um segundo emprego, porque contraíram dívidas no embalo da redução do IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) sobre veículos e precisam aumentar a renda mensal. “Com isso, eles se expõem mais a acidentes, ao desgaste físico, ao estresse”, afirma. “Quando entram no sistema, trazem a carga psicológica disso, piorando o padrão do serviço prestado. Eles vão parar no INSS e nós é que pagamos a conta”.
Para o representante das empresas, esses profissionais caíram na armadilha do governo federal de oferecer financiamentos de longo prazo para segmentos que vinham aumentando seu poder aquisitivo. A isso se juntou, segundo Waldir, um componente ideológico: “O sindicato quer encher o sistema de gente”.
Isso fecha com o fato de o principal item da pauta de reivindicações, este ano, ser a redução da jornada em 10 minutos diários. Se o pedido fosse aceito, haveria um aumento de 2,58% no custo da mão de obra do sistema – hoje, diz Waldir, ele é de R$ 3,30 por passageiro, e a tarifa chega a R$ 2,70. “Mesmo com o subsídio de R$ 0,28, faltam mais de R$ 0,30 para fechar as contas”.
Planos para melhorar o sistema
O professor Antônio Sérgio Coelho, do curso de Engenharia de Produção e Sistemas da UFSC, vê na existência de apenas um tipo de transporte – o ônibus urbano – a gênese do empobrecimento do sistema em Florianópolis e região. Esse problema poderia ser minimizado com a criação de corredores exclusivos para os coletivos, reduzindo o tempo de espera e deslocamento e baixando o custo de operação e manutenção pelas empresas.
Em nenhum desses itens há alguma sinalização positiva imediata por parte da Prefeitura da Capital. “Estamos estudando o modal marítimo e o teleférico, mas em todas as cidades o que predomina é o transporte rodoviário”, reage Vinicius Cofferri, da diretoria de Operações da Secretaria de Transportes, Mobilidade e Terminais.
Cofferri diz que a prefeitura não tem como interferir na relação entre empresas e trabalhadores do transporte coletivo, e se isenta de culpa pelas paralisações. Mas admite que há planos para melhorar deslocamentos e o conforto dos passageiros, o que poderia trazer mais usuários para o sistema, reequilibrando as finanças das empresas

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