sexta-feira, 12 de junho de 2015

Em crise, Itapemirim se desfaz de linhas e vende 40% dos ônibus

Autor: Patrik Camporez | pmacao@redegazeta.com.br
Viação ainda opera 50 trechos, 43% da fatia de mercado em que atuava antes da venda
Na tentativa de segurar seus negócios e manter-se de pé mesmo diante de um cenário difícil para empresas de transportes de passageiros em todo o país, a Viação Itapemirim, umas das mais tradicionais empresas de transporte do Brasil, vendeu cerca de 40% de sua frota de veículos e transferiu mais da metade das linhas em operação para a também cachoeirense Viação Kaissara. A empresa foi fundada em 1953, pelo empresário Camilo Cola, em Cachoeiro de Itapemirim.
Apesar de estarem situadas na mesma cidade e dividirem, inclusive, espaços, as duas transportadoras garantem que são “empresas distintas”. No total, foram repassadas à Kaissara 68 das 118 linhas que eram operadas pela empresa.
Foto: Divulgação
Foram repassadas à Kaissara 68 das 118 linhas que eram operadas pela Itapemirim
Com a negociação, a Itapemirim permanece operando 50 trechos, o que corresponde a 43% da fatia de mercado em que atuava antes da venda. Na resolução (nº 4662) que oficializa a transferência, publicada no “Diário Oficial da União”, constam o repasse de linhas importantes, como a São Paulo (SP) - Rio de Janeiro (RJ), a Cachoeiro de Itapemirim - RJ, e a SP - Curitiba. O valor da venda não foi divulgado por nenhuma das empresas.
O diretor de Operações da Itapemirim, Marcos Poltronieri, nega que a empresa esteja em processo de falência, mas admite que o volume de passageiros caiu nos últimos anos. Segundo ele, as dez maiores empresas de ônibus do país passam por momentos difíceis. Enquanto sobem os custos com pneus, combustível, pedágio e manutenção, e se expandem as políticas de gratuidades, o valor da passagem não é reajustado na mesma velocidade, argumenta. “Ganhar dinheiro com ônibus, hoje, não é tarefa fácil. A gente trabalha muito para ter pouco resultado”, completa. 
De acordo com o Diretor de Operações da Kaissara, Fernando Santos, as linhas assumidas pela empresa começam operando com 271 ônibus. “A atual situação econômica crítica do nosso país fará e já está fazendo com que as empresas busquem soluções estratégicas para se adequarem a esse novo cenário. A Kaissara inicia suas operações fazendo seus investimentos de maneira responsável, buscando principalmente a manutenção dos seus postos de trabalho”, aponta.
Pendências
De acordo com o Sindicato dos Motoristas, Ajudantes, Cobradores e Operadores de Máquinas do Sul do Espírito Santo (Sindimotoristas), cerca de mil funcionários estão em processo de migração de uma empresa para a outra. O número foi confirmado pela Viação Kaissara. 
O Sindimotoristas reclama que ainda não foi procurado pela Itapemirim para explicar como vai ficar a situação dos motoristas. “Todos estão apreensivos. O que piora é o fato de a empresa ter várias pendências trabalhistas. A gente liga para lá, ela diz que vai pagar, mas não dá um prazo”, argumenta o presidente da instituição, Elias Brito Spoladore.
Marcos Poltronieri nega que a Viação Itapemirim tenha descumprido obrigações trabalhistas.
Minientrevista
O diretor de Operações da Kaissara falou com A GAZETA sobre o processo de compra de parte da frota e das linhas da Itapemirim.
Foto: Zeca Ribeiro/Câmara dos Deputados/arquivo
A Kaissara tem ligação com o Grupo Itapemirim?
São empresas distintas. Não ocorrerá migração, mas sim assunção da nova empresa para com todas as obrigações trabalhistas. A Kaissara ficará integralmente responsável por regular o cumprimento do contrato doravante, respondendo por todo o passado, após a aquisição de parte significativa das linhas da Viação Itapemirim. Não existirá prejuízo para qualquer trabalhador. Nosso objetivo principal é garantir a manutenção dos empregos dos nossos motoristas e demais colaboradores. 
Essas 68 linhas representam cerca de 80% da frota da Itapemirim, como estimam os sindicatos?
Não, as linhas assumidas pela Kaissara operam com 271 ônibus. Cerca de 40% da frota original da Itapemirim.
Os sindicatos alegam que não foram procurados para tratar da transferência das linhas e migração da mão de obra de uma empresa para a outra...
Por ser uma empresa de abrangência nacional, a Kaissara promoveu encontros com a Comissão de Negociação da Confederação Nacional dos Trabalhadores de Transportes Terrestres (CNTTT). Nessas reuniões, foram comunicadas as mudanças e garantidos todos os direitos trabalhistas dos colaboradores. Agora, estão acontecendo reuniões com os diversos sindicatos estaduais. São mais de 40, e as reuniões estão sendo agendadas com todos. Com os sindicatos do Espírito Santo, as reuniões devem acontecer ainda nesta semana.
Fusão seria uma tentativa de salvar a viação
Uma das gigantes do transporte de passageiros no país, a Itapemirim enfrenta um cenário onde grandes empresas do setor já declaram encontrar dificuldade para manter-se intactas no mercado em tempo de crise. 
Fundada em 1953, em Cachoeiro de Itapemirim, pelo empresário Camilo Cola, a empresa começou com 16 veículos e 70 funcionários. Em 1967, entraram em operação as primeiras linhas para o Nordeste e, com o passar dos anos, novas cidades foram integradas aos itinerários. Em 2006, foi legitimada como marca de alto renome pelo Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI). 
Entre as décadas de 1970 e 1990, as atividades do Grupo Itapemirim foram diversificadas, passando a abranger os segmentos como mineração, agropecuária, restaurantes, hotéis, turismo e concessionárias de veículos.
Executivos do setor de transportes ouvidos por A GAZETA relatam que, há anos, a Itapemirim estaria passando por uma séria crise financeira, que teve início após investidas malsucedidas da empresa no ramo de aviação civil. A fusão com a Kaissara seria uma tentativa de salvar a viação. A estratégia seria utilizar uma marca diferente para tentar atrair investidores e aumentar a credibilidade no mercado, disse uma das fontes ouvidas pela reportagem.

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