terça-feira, 7 de junho de 2011

Uso de etanol no transporte público tem impacto direto na saúde pública

Em uma cidade como São Paulo, onde os índices de poluição do ar estão muito acima dos determinados pela Organização Mundial de Saúde (OMS), o uso do etanol pela frota de ônibus em substituição ao diesel traria resultados logo no primeiro ano. Este foi o tema principal do debate “Transporte Público: nova frente para o etanol”, realizado na tarde desta segunda-feira (6) no evento Ethanol Summit 2011, que ocorre no hotel Grand Hyatt, em São Paulo (SP).
Participaram da plenária, moderada pelo vice-presidente da Associação Nacional dos Transportes (ANTP), Cláudio de Senna Frederico, o vice-presidente da Scania América Latina, Christopher Podgorski; o gerente de projetos da Empresa de Transporte Público de Estocolmo (Suécia), Lennart Hallgren; o secretário de Transportes de São Paulo, Marcelo Branco; a diretora da Viação Metropolitana, Niege Chaves; o pesquisador e médico da Universidade de São Paulo (USP), Paulo Saldiva.
“Se toda a frota de ônibus paulistana passasse a rodar com etanol, já no primeiro ano a cidade teria 700 mortes a menos provocadas pela poluição do ar,” disse o professor Paulo Saldiva. “A cada ano morrem quatro mil pessoas na cidade por causa deste problema. Temos aqui uma questão de saúde pública muito delicada. As pessoas podem se alimentar de forma saudável, podem parar de fumar, podem se exercitar. Mas como elas podem evitar o contato com ar poluído?,” questionou Saldiva, acrescentando que isso representa um custo de milhões de reais ao Sistema Público de Saúde, o SUS.
No final do mês de maio, a cidade de São Paulo deu o primeiro passo nesse sentido, ao iniciar as atividades dos 50 primeiros ônibus movidos a etanol, que serão operados pela Viação Metropolitana. A Prefeitura tem como meta substituir toda a frota de aproximadamente 15 mil veículos até 2018. A emissão de gás carbônico pelos motores movidos a etanol poluem até 80% menos do que aqueles que funcionam a diesel, dependendo do tamanho e da idade do veículo.
Políticas Públicas
Uma das principais questões abordadas pelos participantes do debate foi o custo da adoção das tecnologias sustentáveis – um ônibus movido a etanol chega a custar em média até 10% mais caro que um tradicional, movido a óleo diesel. Além disso, a eficiência energética de um motor a etanol é um pouco menor que os movidos a diesel. O ganho, no entanto, é ambiental.
“É preciso tratar da questão da sazonalidade e dos preços do etanol, além de reduzir a carga tributária. Um ônibus tem pelo menos dez anos de vida útil, e o investimento neste tipo de negócio requer uma segurança de que as políticas de incentivo ao uso de energias limpas serão mantidas,” argumenta Niege Chaves, acionista cuja empresa adquiriu em maio uma frota de 50 ônibus movidos a etanol.
Longo prazo
“Não se pode comparar as novas tecnologias com investimentos em diesel, que já foram depreciados, e que causam sérios problemas ambientais. Não é correto olhar apenas o custo de se rodar com etanol ou diesel porque há custos mascarados por trás disso e que refletem em toda a sociedade,” explica o secretário Marcelo Branco, citando como exemplo os investimentos em saúde pública. “O custo não para quando se transporta o passageiro, é preciso pensar em um avanço real e lúcido na adoção dessas novas tecnologias.”
“Na verdade, não calculamos o custo de manter a situação como está. Alguém paga pela ineficiência e isso acaba acontecendo no ‘andar de baixo’. Quem paga a conta é a saúde da população, principalmente das pessoas que ficam muito tempo paradas nos corredores de ônibus, onde há uma concentração muito maior de poluentes. A verdade é que o diesel não se comporta bem no setor da saúde humana,” acrescentou Paulo Saldiva. “Nossos caminhões, por exemplo, poluem 15 vezes mais do que os caminhões europeus. Mas eu duvido que a saúde do brasileiro seja 15 vezes mais resistente do que as populações daquele continente.”
Scania
Os ônibus movidos a etanol que começaram a circular em São Paulo tem a mesma tecnologia da Scania da Suécia, país que deu início às políticas de renovação energética do transporte público de Estocolmo em 1990. Atualmente, 50% dos ônibus que circulam naquela cidade são movidos a etanol. A meta, de acordo com Lennart Hallgren, é atingir toda a frota até 2025, eliminando por completo o uso de combustíveis fósseis.
Embora os valores investidos tenham sido elevados, Hallgren afirmou que a Suecia está próximo do equilíbrio e disse acreditar que os custos venham a cair no futuro. Isso porque a previsão é de aumento nos preços de combustíveis como diesel e petróleo por conta do aumento da demanda.
Veja algumas ideias discutidas pelos participantes do painel:
Paulo Saldiva, da USP: “Para real investido em energia limpa, a cidade de São Paulo ganha de R$ 7 a R$ 8 em saúde. Na hora de se investir nesse segmento é preciso pensar se queremos seguir o modelo de Estocolmo ou de Los Angeles. Alguém está pagando a conta, não só da poluição do ar, mas das ilhas de calor que mudaram o clima da cidade e que provocam enchentes no verão.”
Lennart Hallgren, gerente de projetos da Empresa de Transporte Público de Estocolmo: “Em Estocolmo, nosso planejamento não considerou apenas as questões climáticas, mas também políticas. Nossos políticos estão traçando metas ambiciosas para que todo o nosso sistema de transportes opere com energia limpa. Atualmente, todos os nossos trens trafegam com eletricidade obtida a partir de usinas hidrelétricas.”
Christopher Podgorski, vice-presidente da Scana América Latina: “Os biocombustíveis são econômicos do ponto de vista global. Ainda temos que investir em infra-estrutura e regulamentação. Parece difícil, mas não é o caso. Hoje todos nós pensamos em como criar um sistema de transporte mais sustentável. O importante é que haja sinergia entre empresas, governo e produtores.”
Niege Chaves, presidente da Viação Metropolitana: “A produção brasileira de etanol dá segurança para investir. Além disso, a rede é bem estruturada. O etanol brasileiro é um produto muito bem sucedido. Se teve êxito na Suécia, não há por que não repeti-lo aqui.”
Marcelo Branco, secretário de Transportes de São Paulo: “A legislação adotada em São Paulo, com a Lei de Mudanças Climáticas, dá mais segurança para o investidor. Não dá mais para voltar atrás. Esta é uma questão de interesse público e nem a sociedade permitiria um retrocesso.”

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