segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Caminhões: na China, importados são só 3%

Barreira do preço baixo impede crescimento
PEDRO KUTNEY, AB | De Chengdu (China)
Ao contrário do segmento de automóveis de passageiros, onde as marcas estrangeiras dominam o cenário na Chinacom cerca de 70% das vendas, o mesmo não acontece entre os comerciais leves e pesados, com apenas 3% de participação de fabricantes multinacionais. "O problema é o preço. Aqui um caminhão de médio a pesado custa de US$ 25 mil a US$ 40 mil. É impossível competir com produtos de qualidade com valores como esses", explica Rudi Von Meister, presidente da Navistar China, empresa que firmou parceria com a chinesa JAC para produzir caminhões, ônibus e motores no país. 
Mercado de caminhões na China ainda é dominado por produtos de baixa confiabilidade
Já há 20 anos na China, Von Meister trabalhou na General Motors e antes de assumir o comando da Navistar no país, em maio de 2011, passou oito anos na operação chinesa da Iveco, a Naveco. Com essa bagagem, o executivo concorda que os chineses tratam os caminhões como commodities baratas. "Precisam aprender que caminhão é uma ferramenta e como tal precisa ser confiável, durar muito. Por isso custa caro", disse durante painel sobre veículos comerciais no III Global Automotive Forum (GAF 2012), em Chegdu, na China. "Um caminhão tem vida útil de cinco a seis anos aqui, enquanto em outros países chega a mais de dez anos. Um motor deve durar mais de 2 milhões de quilômetros. É nisso que a indústria chinesa deve mirar", acrescentou. 
"Enquanto competirmos apenas por preço nunca vamos inovar, nem agregar valor aos produtos vendidos aqui", afirmou durante o mesmo painel Zhou Liang, diretor geral da Naveco. Segundo ele, vários conflitos impedem o crescimento e globalização dos fabricantes chineses de veículos pesados: "A pressão por preços baixos cria produtos de baixa tecnologia e um caminhão é um bem de capital que deve ter alta tecnologia agregada. Há ainda a exigência de grande nacionalização de componentes, o que nos mantêm abaixo dos níveis de qualidade dos principais jogadores desse mercado, pois não conseguimos fazer tudo aqui", elencou. "Precisamos inovar o nosso modelo de inovação. Não temos a maioria das tecnologias de que precisamos e temos de desenvolver talentos locais", avaliou.
Presidente da Asimco, um dos maiores fornecedores de componentes da China para veículos pesados, Wilson Ni reconhece o problema: "Nossos preços são muito baixos e então a rentabilidade também é, não sobram recursos para fazer pesquisa e desenvolvimento para melhorar a qualidade de nossos caminhões." 
CONSOLIDAÇÃO
Obviamente, os fabricantes nacionais de veículos comerciais pesados não concordam em todo com essa visão. "Nossos produtos já estão na média do mercado", garantiu Wang Xigao, presidente da estatal Jiangling. "Não estamos preparados ainda para Europa ou Estados Unidos, mas já temos presença na África, Oriente Médio e América do Sul", acrescentou Fang Hongwei, presidente da também estatal Shaanxi – que no Brasil tenta parceria com o importador local para a montagem dos caminhões Shacman. 
Na China existe quase uma centena de fabricantes de veículos comerciais, a maioria muito pequena, que o governo mantém para preservar empregos. Muitos sequer conseguem cumprir com a regulamentação de emissões, atualmente equivalente a Euro 4. Por isso, para Rudi Von Meister, a consolidação do setor, com drástica redução do número de empresas, "parece inevitável" com o aperto da legislação e retração do mercado. 
Hongwei, da Shaanxi, confia que as marcas já estabelecidas poderão sobreviver mesmo sem associações com as fábricas estrangeiras: "Temos história de 60 anos nesse setor e creio que há outras opções além das joint ventures. Queremos acordos de cooperação, mas não uma associação acionária", disse. MERCADO EM QUEDA
O crescimento acelerado também parou no mercado de caminhões e ônibus na China. Atualmente as vendas já registram queda de 10% sobre o ano passado, considerando veículos acima de 3,5 toneladas de peso bruto total. A maior queda é registrada no segmento de pesados, acima de 16 toneladas, que só no primeiro semestre recuou 23% e deve fechar o ano com pouco mais de 500 mil unidades vendidas, contra 800 mil em 2011.
"O crescimento do mercado de caminhões na China deve arrefecer e passar a acompanhar a evolução do PIB mundial. Não esperem mais por grandes saltos. Nos próximos anos deveremos ficar abaixo de 5%", avaliou Xigao, da Jiangling.

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